sábado, 6 de abril de 2013

D'uma noite aventurada, eis na Lapa, um ilustre menino


Não se torna uma noite inesperada sem grandes acontecimentos, ou mesmo que sejam minúsculos, mas que impactem de uma maneira grandiosa, e foi o que aconteceu. Num dia que o planejado dá um erro e que depois, mudando todo o roteiro, acontece, há mais que esperar que grandes coisas surjam, principalmente na Lapa (Centro, Rio de Janeiro), onde tudo há de acontecer.
Cabe-me a dizer que fui a Feira do Rio Antigo durante o período da tarde, situada na Rua do Lavradio, no Centro do Rio de Janeiro. A feira que dá destaque à relíquias antigas, desde vitrolas até artesanato, é uma atração turística da cidade em que a história permanece viva por lá praticamente dessa maneira: você encontra relíquias, e além das relíquias, arquitetura da cidade antiga. É sensacional, ainda podendo ter uma noite inesquecível e divertida na Lapa no final da rua, que você para na nada mais nada menos que na Mem de Sá.

Não seria prudente ir para tal feira sem frequentar um dos pontos de referência da noitada carioca, onde tudo pode acontecer. Ao ir para tal local, encontra-se vários bares na rua Mem de Sá, que é o centro da boemia carioca, onde também se pode encontrar bares de todos os portes, desde pé sujo, até de luxo, e até danças de gafieira e pubs onde há shows de rock, blues e jazz. Como de costume de minha velha e meu velho (avós), partimos adiante ao nosso bar favorito da região.

Em terra que há casarões antigos que de repente virem botecos, há casas onde ela é realmente grande, mas a questão é: você não tem espaço suficiente para tudo em apenas um pavimento, a solução é partir para o que todo boteco faz e que dá um luxo grande também; "o senhor não se importa de sentar na calçada?", disse o garçom solícito. Mesa alocada, cerveja na mesa, comida, há todo aquela cerimônia de "iremos brindar!", e que comece a baderna.

Conversa para cá, para lá, aparece-me uma senhora. Uma senhora bem debilitada, pedindo dinheiro, mas havia um mal cheiro, mas não de sujeira, e sim cachaça, e sua aparência física inteira dava impressão que tinha bebido há pouco tempo. Obviamente quem conhece mendigos, sabe que grande parte que pede um tostão furado, se der dinheiro, é bem provável que acabe como esta senhora, bêbada com olheira no chão -- não minto em dizer que ela estava quase desmaiada no chão, porque a vi levantar de longe.

"Apareceu" outro, mas invés de falar, gritou algo quase distante de nossa mesa e saiu andando. Bairro com importância na arte de todos os tipos, um rapaz pintando azulejos aparece, que um outro numa outra mesa compra um, mas na nossa, não. E, finalmente, chega na parte que interessa a todos e que de uma venda de amendoim, virou algo realmente intuitivo e engraçado: o pequeno mulato que aparecera para nós vendendo amendoim; o nome até soa bem para uma crônica sobre o bairro.

De pronto início, eram dois, e colocaram uma "amostra grátis" em nossa mesa, sem percebermos. Ele passa, muitos recusam, e tenta em nossa mesa. Recusamos de primeira, mas o mulato persiste dando até formas de pagamento mais facilitada, como "3 por 5", ou coisas do tipo. Não convencido, muda o valor, e depois, atenta-se a uma dama que estava em nossa mesa, alegando que, pela beleza dela, faria mais uma promoção, o que foi muito cortês da parte do pequeno.

O pequeno ainda diz que, levando o amendoim, a dama ganharia um presente. Que diabos seria? Não havia imaginado nada que pudesse fazer! Surpreendendo a todos, o dito cujo pega um guardanapo de nossa mesa e começa a dobrar, que de repente, surge uma rosa de papel, outro ato bem cortês. Foi tão impressionante que nossas impressões faciais modificaram-se e ainda entregou-a dando um beijo na rosa dizendo "uma rosa para outra rosa", algo do tipo. O garoto ganhou clientes em pequenos gestos. Quase que levanto como um francês gritando "Bravo!".

Logo depois, começamos a brincar com ele, pois na mesa havia mais vascaínos que flamenguistas, e o mulato utilizava uma camisa do time rubro negro. A piada foi: só compro se for vascaíno. Depois de muitas brincadeiras, ele brincou que utilizava só a camisa, que gostava do Vasco, e vieram várias gargalhadas. Convenceu-nos de novo! Não iríamos comprar nada! Foi brilhante!

Finalizando tudo, o mesmo agradecendo e nós agradecendo também, ele decidiu fazer uma piada consigo mesmo dizendo que, por ser negro, combinava com urubu, sendo assim, era flamenguista. Todos riram por um longo momento, ficamos até brincando com isso, e elogiando-o. O garoto tem talento! Ele sabe o que fala e consegue convencer. Digamos que é o "marketing de rua", ou quase isso.

Eu não pensei no momento por estar com celular praticamente descarregado, mas eu gostaria de ter tirado uma foto do mesmo para adicionar nesta crônica, pegar seu nome real, e procurarem por aquelas ruas para incentivar uma ideia do carismático. O garoto, no mesmo momento que começou a utilizar seus truques, me veio em mente: ele deveria ser ator. Sim, ator, ele tem lábia, talento, carisma, e tudo que há! Ele é pelintra, com berços no local correto para agir com suas deixas.

Mas é sério, se alguém que leia esta pocilga de site e ande por aquelas bandas da Mem de Sá e caso encontre dois meninos vendendo amendoim pela noite, um moreninho e um mulato, sendo o mulato com seus truques e flamenguista, não corram. Deem um incentivo ao menino, e consiga informações dele, pois adoraria que algum ativista de artes cênicas para crianças carentes o conhecesse.

Realmente, este moleque cativou-me. Que pelintra!