Todo mundo ao chegar no horário de término do serviço, seja ele manhã, tarde, noite, ou qualquer um momento do dia, o desejo é chegar logo em casa, e que no caso do Centro do Rio de Janeiro, o costume é ir de ônibus ou metrô mesmo tendo carro. Assim como há vendedores de bala e cortadores de abacaxi, já vi gente tocando Águas de Março, que para mim, é ótimo, que para outros, pode não ser. Mas como hoje... não, não dá! Se já não basta o que já ouvimos no cotidiano, ainda aturar crente voltando após um dia cansativo? Foi o que passei.
Tudo começou enquanto eu estava no ponto de ônibus com um amigo em que o ônibus parou repentinamente, e como sempre, sem nenhuma surpresa, nada demais para um ônibus. Não foi bem assim que se sucedeu a história, principalmente já não foi como eu esperava antes, pois já havia visto da roleta um homem entregando papeis e bem vestido; pensei ser um necessitado antes de ver suas vestes, mas estava bem vestido demais. Fui dar de cara com o homem e quando retirei o fone, ouvi as seguintes palavras: "a palavra do senhor".
Com meu histórico de evangélicos — a maior parte, digamos, 95% — que vive tentando atormentar meu cotidiano, alguns me chamando de endemoniado (sim) porque acredito em coisas que para eles é um terror, não consigo suportar seus fundamentos. Aliás, não só direcionado a mim, como também algumas práticas preconceituosas que me dá vontade de pôr esta religião com seus seguidores que pratiquem o preconceito — sim, sim, sim, eu sei, não dá para generalizar, mas posso dizer que a maioria é assim — para fora do país. Mas vai de cada um, e eu não suporto, assim como acho um absurdo as cruzadas.
Contudo, ao presenciar tais palavras, veio-me logo um pensamento: não. Sou educado por natureza paterna e neguei educadamente; o homem voltava a insistir aonde neguei novamente umas duas vezes e não dei bola, no qual já me encontrava praticamente irritado pela insistência — acredito que meu último "não" não foi lá muito amigável. Achei que havia parado por ali, que não iria dizer mais nada, apenas ia ficar num canto como fiquei, parado, conversando, e ouvindo música ao mesmo tempo, mas não. Para a infelicidade de todos, o homem, assim como os adorados vendedores, falou em tom alto na roleta. Para que?
Foi ele proferir de novo "palavra do sen...", sendo que dessa vez em tom alto, na qual foi impedido de finalizar em que o povo clamou pelo silêncio que havia dentro do ônibus sentindo-se incomodados assim como o povo se sente quando um funkeiro, pagodeiro ou até mesmo rockeiro — reclamo de qualquer música — decide pôr música nas alturas sem fone de ouvido. Não foram pequenas críticas, foram até rudes, mas eu dava razão ao povo: ele estava errado, não podia aparecer e falar isto, principalmente quando não queremos, até porque, religião não é algo obrigatório no país.
Mas nada do homem parar. Ele falava, falava, tentando se justificar com o argumento que iria proferir palavras de Jesus, e nada do povo se acalmar. Quanto mais falava, mais alardante ficava o povo, levantando um por um de seus bancos, e gritando, e com razão. Quanto mais ele falava, mais eu via razão na boca do povo, que lá estava a esgoelar, e por sorte, desistiu e foi para o fundo do ônibus, próximo a mim, aonde permaneci em silêncio já que minhas críticas foram dadas antes dele ir para o local posterior.
Logo lá atrás decidiu insistir com outra pessoa alegando que ele tinha permissão para fazer o que fazia e desejava fazer. Mas pera aí, nunca vi! Aquela carteira que apresentou, mostrando e dizendo que é permitido, eu nunca a vi na vida! Minha carteira estudantil vencida é mais válida que aquela, e nem mesmo Vossa Santidade Papal teria permissão para o ato, até porque o papa não perderia o seu tempo num ônibus lotado voltando da Cidade para pregar umas palavras que nem se sabe se Jesus disse um dia.
Realmente, foi engraçado, pois assim como eu ri, muitos outros riram e deram razão ao povo que criticava, ainda mais que ninguém o defendia; nem mesmo meu amigo, que tem a mesma crença (ou tinha), deu razão ao homem. Perturbar o silêncio alheio para falar de religião? Por favor, né? O povo já mal aguenta as ladainhas de pastor na televisão, quanto mais num ônibus. Só desejo que a moda não pegue, sinceramente.