"Está tudo muito caro", dizia nosso personagem. Ele tinha razão, mas ao mesmo tempo, não tinha razão. "Em nome do país, devemos acabar com esta burguesia suja que apenas escraviza", seguia com seu discurso, "e lutar pela nossa causa. Defender os interesses do povo, defender o direito do trabalhador", assim era seu discurso numa salinha escura onde trabalhavam, justamente para levantar o astral de seus dois seguidores, que até então, haviam silenciado suas palavras para ouvir o amigo.
Desesperados, não sabiam o que fazer. No passado, seus antepassados haviam planejado de tudo para impôr seu desejo marxista, o seu sonho utópico, que para eles solucionaria tudo. Mas não fazia diferença: milicos, políticos, e até mesmo os Estados Unidos poderiam impedi-los, mas não faria diferença, revidariam, levantariam e agiriam. Esta era a pauta da reunião do pequeno grupo que pensava numa utopia hiperbólica.
Ao sair do prédio na Av. Rio Branco, desceram em sentido à Uruguaiana. Desceram, riram, e pararam no McDonald's. Jantaram, e de lá foram para mais um protesto da noite, com gente vestindo camisas de partidos e movimentos como PT, PSTU, PCdoB, PSOL, MST, entre muitos outros partidos que apenas prezam o bem do país. Enquanto protestavam e gritavam pelo fim do corporativismo, pelos trabalhadores – como se apenas eles trabalhavam –, nosso companheiro tomava mais um gole de sua Coca Cola para refrescar a garganta exausta pela gritaria, e depois, abaixaria para amarrar seu tênis da Nike.
Logo após o fim da noite, pegavam seus carros: um Ford EcoSport, um Fiat Idea, um Mini Cooper e seguiam para seus apartamentos na orla da Barra da Tijuca. Ao chegar, desfrutavam mais uma garrafa de whisky escocês enquanto fumavam charutos, e mais ainda, apreciavam a incrível vista da cobertura, que dava para a praia. Brindavam com palavras como "à vitória da nossa luta". Acho que nunca mais veremos revolucionários melhores que estes três. "Ao futuro do país!", diziam.