segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Conto: O menino


Durante as minhas caminhadas matinais, ou devo dizer, estava indo para uma das minhas obrigações matinais quando paro e penso um pouco. Ao recordar que não havia tomado uma gota de café ou comido algo por conta de um suposto atraso, catei o restante das moedas que havia no bolso da calça e contei.

— Cinquenta... setenta e cinco... um real... — dei um suspiro de leve. — É... dá para comer algo... devia ter trazido minha carteira.

Não dei as caras ao meu problema de sempre esquecer algo na cabeceira da cama e atravessei a rua em direção à padaria. Enquanto caminhava, notei um menino sentado no meio fio da calçada que me pedia dinheiro por comida e insistia. Insistia, porém eu negava. Senti pena, me deu vontade de não tomar café, mas os meus interesses gritavam mais alto e segui meu caminho, mais uma vez.

Sentei numa mesa que fica bem próxima à janela, uma das minhas favoritas, e decidi pegar meu jornal na mochila, e, para minha surpresa, encontro uma nota de vinte reais e meu cartão do lado, e, quando mexo mais um pouco, minha carteira. Sorri por minutos, fiz piadas comigo mesmo, fiquei contente, fui ao buffet e me servi com as melhores tortas, salgados e pedi um belo suco de abacaxi com hortelã, e, logo em seguida, um chá para tapear isso tudo.

Continuava com a cabeça eufórica pela tamanha sorte e nela, gritos de comemoração, mas quando abro o jornal e leio um artigo sobre demissões por conta de uma baita crise financeira que se estabeleceu no país, fito meus olhos no vidro que dava para a rua e, de longe, avisto o menino que havia me pedido dinheiro mais cedo – parecia que ele queria mais atenção que dinheiro, aliás. Ele estava sentado ao lado de uma banca de jornal de um italiano bem rabugento, que aliás, lembro até hoje dele gritando quando eu era criança e passava correndo de bicicleta por ali. O italiano continuava xingando, mesmo sabendo que ele se afastou um pouco, mas eu até dava um pouco de razão, aliás, geralmente estes meninos que ficam por aqui por Botafogo não são lá muito confiáveis. Mas, na minha cabeça e acho que somente na minha mesmo, via algo diferente. O menino parecia ter entre 10 e 12 anos, parecia bem inteligente e ainda bom. Tomei conta de fechar o jornal e soltá-lo na mesa e raciocinar algo.

Por fim, decidi terminar de lanchar e tomei o jornal de novo em mãos. Decidi pensar enquanto lia, mas nada de chegar numa ideia fixa. Pensei em oferecer dinheiro, mas, além de ser meio vergonhoso para ele, ele poderia desviar o intuito da fome e procurar outros fins. Foi quando uma badalada ideia que eu já previa que daria algum problema tomou minha mente e eu, teimoso, quis agir.

Tive uma ideia na qual nenhum ser humano pensaria. A vontade de ajudar falava mais alto, ou melhor, gritava em meus ouvidos. Por um segundo, senti minha cabeça dolorida pelos berros e pela ansiedade que me tomava naquele momento. Havia gente me encarando pelo "Já sei!" que soltei bem alto com aquelas caras de "ele é louco". Não me importei, levantei e me direcionei ao balconista:

— Tome conta para mim? Por favor. Vou passar ali na banca rapidinho, marca um dez!
— Claro... — respondeu o balconista, meio assustado.

Saí da padaria e fui em direção à banca. A primeira coisa que havia notado foi o menino sentado, com a cabeça baixa, parecia estar chorando, mas não estava. Notava também as pessoas desviando o caminho falando "cuidado" bem baixinho para os acompanhantes. Sentei ao lado dele e comecei a falar:

— Se acalme, não adianta se remoer por conta de gente estúpida e ignorante. Vou te ajudar, venha comigo.
— Han? — ele respondeu.
— Vem, você não tá com fome? Então!

De começo me olhou de ponta à cabeça, como se estivesse sentindo medo ou pensasse que fosse alguma brincadeira, mas disfarçava. Logo em seguida, se espreguiçou e continuou olhando. Coçou os olhos e começou a me seguir. Estava indo tudo bem até que, ao entrar na padaria, tomaram-lhe pelo braço e jogaram-no no meio do olho da rua enquanto gritavam.

— Aqui você não entra, seu delinquente!
— Vocês estão malucos? — reagi. — Como se faz isso com alguém?
— Simples, ele não é alguém. Apenas veio pegar algo e sair vitorioso no seu grupinho de pivetes para ter comida.
— Vocês são burros ou são o quê? Cegos? Acho que sim. Ele estava comigo, seu retardado. Agora ele estará entrando, toquem um dedo nele que vocês verão o que acontece.
— Ele não entra...
— Ah, vai se fu... — segurei um pouco. — ...estou ligando para o meu advogado agora, se é assim que querem, já é?

Ninguém parecia se importar com o que disse até tocar no telefone. Peguei e disquei, comecei a ter uma conversa que foi quando o dono do estabelecimento, que havia expulsado o menino, começou a reagir com expressões de pânico. Finalizando a conversa, entrei com o menino.

Foi a coisa mais estranha que já vi na vida. Uma senhora arrumou os óculos, bem jeitosinha, e arregalou os olhos do começo ao fim. Um homem fechou seu jornal, e seu filho (parecia) o seu livro. Os balconistas, enquanto trabalhavam, sempre tentavam fuxicar um pouco o que acontecia na entrada. A padaria inteira se manteve dessa maneira, e cada um agindo à sua maneira. Todos engoliam a seco também.

Dirigi ao meu assento, agradeci ao balconista que tomou conta de meu lugar e minhas coisas, sentei e mandei o menino pegar e pedir o que fosse de seu bom grado. Ele não sorria apenas, vibrava, teve um momento que ele pulou. Infelizmente, a sua felicidade durou pouco, pois quando estava na fila, todos passavam na sua frente, e como era bem educado, ele acabava permitindo. Quando ele finalmente conseguiu entrar na fila do buffet, uma senhora fechou a bolsa e a tirou de perto dele. Fuzilei-a com os olhos como se dissesse "eu teria vergonha de você" e ela, toda sem graça, tentava disfarçar, mas mantinha sua cara emburrada.

O maior problema foi enquanto ele pesava. Um balconista o tratou mal até demais, sendo ofensivo e a expressão de pavor crescia a cada momento na face do menino. Consegui intervir ainda sob a ameaça do processo, mas não foi o bastante. Entregou o prato de qualquer maneira e continuou gritando "e como pretende pagar", foi quando me levantei e gritei.

— Quem paga sou eu, quem está tomando conta dele sou eu, então me faz um favor? Trate ele bem ou quem vai arrumar caô aqui sou eu.

Houve silêncio por um longo intervalo de tempo. Enquanto havia silêncio, eu pedia mais uma xícara de café e ele, mesmo eu mostrando a ele os melhores sucos, preferiu água, a fonte da vida. Decidi ler o jornal enquanto ele lambia os beiços vendo aquelas comidas que, na cabeça dele, talvez nunca mais veria na vida.

— Ih... olha só! Mais um projeto de lei estúpido vindo de socialistas — dei uma pausa, tomei um gole de café, e decidi abrir uma palavra. — Desculpe, como é mesmo seu nome?
— Ga... — engoliu um pedaço de pão. — ...briel. E você?
— João Figueiredo, mas pode me chamar de Figo. Todos me chamam assim desde que eu era da sua altura e andava isso aqui tudo de bicicleta. Ainda é meu pseudônimo, como "Jô Figo".
— Pseudônimo?
— É como você assina algumas coisas suas para o público saber quem escreveu e quem você é. Você pode usar seu sobrenome, outro nome, o que for. Eu gosto de assinar minhas obras com "Jô Figo".
— Então você é tipo aqueles caras que escrevem histórias? — perguntou, com os olhos bem arregalados.
— Se você entende isso como escritor, pode ser que seja isso mesmo — do nada soltei uma gargalhada. — , mas, eu sou mais especialista em outras coisas, como música, pintura, artes cênicas, e afins. Ainda não escrevi nenhuma história que fosse best seller ou que fosse um conto digno de estar nesse jornal aqui.
— Mas isso é muito fo... — cortei-o no momento, mandando evitar o palavrão. — Legal!
— Ah, já tô acostumado. Preciso de algumas aventuras. — mais uma pausa, mais uma xícara de café. — Você estuda?
— Sim, mas meus pais nunca me incentivam e sempre me fazem faltar. Estou aqui na rua porque estou fugindo do meu pai. Ele vive bêbado pelas ruas, brigando com minha mãe, discutindo. Sou filho único, não tenho muitos amigos, não tenho o que recorrer. É fo...
— Então por que não foi à escola?
— Han? — respondeu surpreso. — Hoje é sábado!
— Ih! Ignore! — Gargalhei.

Realmente, ele parecia bem pobre, mas não tinha aparência de que vivesse pedindo dinheiro nas ruas. Continuou me contando sobre sua família, me explicou como era sua mãe, que o atendia muito bem, e dava para notar que ele estava arrumadinho demais para ser mendigo ou algo do tipo e parecia que por mais que ele estivesse "fugindo", ele estava sob a permissão de alguém, pois não estava com medo. Talvez fosse da mãe mesmo, mas era mau visto pelo povo.

— Estou aqui mesmo porque gosto de ficar por aqui. — continuou. — Acho lindo ver o Cristo daquele parque, gosto de ver os pontos turísticos da cidade, mas sempre me expulsam.
— Infelizmente, as pessoas são assim. — respondi. — Mas há aqueles que não fazem por mal, porque, você sabe, tem sempre aquele malicioso.
— Eu sei... Tá vendo esse machucado? Foram aqueles pivetes da Rua do Catete que me bateram e roubaram meu livro e nunca mais vi. Acho que venderam.

Ele começou a ficar triste. Mexi na mochila, mexi, procurei um livro para ver se podia ajudar e nada. Caramba! Eu sempre ando com livros infantis porque sempre visito orfanatos. Acho que dessa vez foi o livro que esqueci em casa. Que seja! Houve outra pausa enquanto ele comia e eu decidi voltar a ler. Comecei a falar sozinho enquanto brigava com o jornal com palavras como "superavit", "inconstitucionalmente", "Dow Jones", "queda do dólar", "falha da economia planificada que queriam impôr no país X", entre muitos outros termos que colunistas de política e economia adoram utilizar em seus textos. Depois comecei a rir de alguns textos na sessão cultural. Ele cansou de ficar na dúvida e me perguntou onde estava a graça.

— Aí é que está! — respondi. — Não há!
— Han?
— Um dia você vai ver como a política é um stand-up num grande edifício no centro do país e como os jornalistas são os únicos que fazem relatos dessas comédias.
— Ah...

Pelo visto, continuava sem entender, e eu continuava nesse ciclo. Folheava, cantava alguma música, guardava o periódico e arrumava a mochila. Continuei falando com ele, dei um estímulo a estudar mesmo que não fosse fácil, mesmo que criticassem e impedissem. Mandei ser rebelde mesmo, fugir e ir para a escola. Dei a ele endereços das melhores bibliotecas do Rio de Janeiro, incluindo meu telefone para caso precisasse de algo – e acredite, ele precisou –, dei a ele bons nomes de títulos infantis, enfim, bati um grande papo com o moleque. Mostrei alguns desenhos que ia apresentar no dia para ele. Saiu de lá com a cabeça cheia de ideias novas. Foi exclusivo, ninguém tinha visto, nem minha namorada, que iria ver junto com os meus diretores.

— Bem... acho que já passou da minh... — olhei o relógio e gritei. — MINHA NOSSA SENHORA! ESTOU MUITO ATRASADO!

Como era de se esperar, me fitou com cara de "este cara é louco" de novo enquanto a multidão nos fitava e eu quase mandando um dedo do meio para todo mundo. Nossa presença não era muito agradável para eles e eu estava nem aí para eles. Fomos para o caixa, paguei, e baixinho a caixa disse "parabéns...". Fomos para a rua e ele me seguiu até eu chegar próximo à Urca.

Nos outros dias, por pelo menos duas semanas, o encontrei algumas vezes, mas não todos os dias, principalmente porque sempre passava por lá com pressa. Um dia desses, ele me procurou, mas infelizmente, ajudei-o à distância pois eu estava em São Paulo. Quando voltei ao Rio, nunca mais o encontrei e toda vez que passava naquela esquina, recordava um pouco dele, e, cá entre nós, foi divertido.

Hoje, quase vinte anos depois, estava andando pela Av. Rio Branco, indo em direção à estação Uruguaiana, e escuto um "psiu", mas não dei bolas. Depois gritou meu apelido. Pensei na hora: "de novo não, mais um admirador de meus textos? Chega! Já é o décimo hoje!", já que alguns planos meus deram certo com o passar dos anos. Quando estava chegando à escada rolante da estação, me seguram pelo ombro. Suei frio, afinal, eu estava na Uruguaiana e aquilo não rima com segurança. Enquanto isso, só escuto:

— Você se lembra de mim?

Olho para trás, vejo um menino. Não, um menino não, um homem. Vestia uma camisa social, usava um belo Ray-Ban Clubmaster, um All Star, um jeans da Levi's, uma pasta de couro legítimo, e reconheci na hora pelo olhar que foi algo que realmente lembrei. Era o menino, que havia crescido, seguiu meus conselhos e olha hoje, um advogado renomado e bastante procurado pelas empresas. Estava voltando de um caso que teve de resolver com uma empresa na Av. Rio Branco. Mas uma coisa que me marcou muito foram algumas palavras que saíram de seus lábios:

— Obrigado, você me deu esperanças.

Nota do autor: isto é fictício. Quem me dera se fosse verdade.
Segunda observação: "marca um 10" = carioquês.