Foi uma semana bem ruim, podendo dizer até que, não por culpa minha, incidentes trágicos aconteceram, deixando-a pior do que já estava. Desejava o fim dela logo, mas não podia controlar o tempo. Deixei-o passar, contei segundos, mesmo que demorados, mas foi passando gradativamente, agradando os velhos costumes dos senhores do tempo.
Sabia que o fim dela me prometeria coisas absurdas e não falo de beber até cair no chão, nem dormir. Havia um evento particular entre amigos na Praia do Arpoador, bastante conhecia pelos turistas. Enquanto a cidade chegava agitada de seus eventuais serviços que poderiam fazer numa tarde de sábado, com uma bicicleta, eu pedalava do Leme até o destino prometido.
Chegando lá, três pessoas me aguardavam. Três maravilhosas pessoas. Me sentia privilegiado por estar ao lado de pessoas tão maravilhosas. Corriam para lá, para cá, subiam nas pedras, desciam de novo, e começavam a falar coisas que só Deus sabe o que diziam. Poderia estar ali no meio, mas preferi ficar em pleno silêncio na calçada da orla enquanto guardava a bicicleta.
— Você não vem? — Gritavam, rindo.
Já que minha presença foi descoberta, desci tranquilamente pisando sob a areia. Estava fofa, macia, meio fria. Meus jeans não podiam aquecer meus pés, e ainda bem, pois sentir aquilo elevava um astral inteiro, tendo conexão apenas entre meus pés na areia e minha boca e o cigarro. Fazia meses que não estava nessa sintonia.
A conversa corria para lá e para cá. Dois levantavam taças, brindavam coisas sem sentido, enquanto eu e uma amiga dividíamos uma cerveja. Relembravam da semana e riam do cotidiano, faziam piadas com seu chefe e comentavam sobre uma notícia da TV, até o momento dela chegar. Por sua sorte, Clara era a mais esperada da noite por sua fama de se atrasar sempre e, de minha parte, por culpa do passado.
Uma conversa nunca levava a nada e só sabíamos falar sobre filmes dos anos 70 e 80. Decidi deixar a conversa para depois e cumprimentei-a, como todos, e também entrou na brincadeira. Eu tocava violão enquanto cantávamos sucessos dos Beatles, Rolling Stones, Pink Floyd, Engenheiros do Hawaii, Bob Dylan, Caetano Veloso, entre muitos outros. Acho que em uma noite, reviramos a história do rock, MPB e tropicália.
Decidi caminhar um pouco até a água enquanto o resto ficava para trás. Sentir um pouco de água nos pés, principalmente na praia, é sempre libertador, ainda mais fumando um cigarro, não havendo nada mais que pudesse incomodar aquele momento. Era uma onda e uma tragada, tudo em sintonia, e eu lá, parado, apenas pensando. Vinham lembranças, coisas nada a ver, pensamentos abusivos e eu.
Mal sabia que minha paz poderia ser cortada por, sei lá, Clara. Éramos uma dupla de um crime perfeito sem deixar pistas, mas não passava disso por culpa do passado. Começávamos a brincar com as velhas piadas infames de nossa existência, depois rimos um de outro. Perguntei como foi a semana dela, e ela contou, perguntando a minha. A nossa amizade era perfeita, mesmo com o passado.
— Cara... — ela disse — preciso te contar uma coisa...
— Pode falar. Meus ouvidos são seus.
— Não, é sério, me escuta.
Nunca a vi falar naquele tom tão afetuoso e sério ao mesmo tempo. Decidi deixar acontecer.
— Eu te amo — retomou a conversa depois de um tempo em silêncio.
— Mas eu também... sempre disse isso.
— Não, é sério.
Nunca, na minha vida, imaginaria algo vindo dela depois de tudo que passamos. Quer dizer, como sou idiota. Eu poderia ter notado isto antes e esperaria isto sim. Namoramos por um bom tempo e nunca a vi namorar ou ter algo com alguém depois disso. Sempre notava seus olhares nos meus, mas nunca pensava em mais nada. A semente ficou lá, pronta para brotar novamente, e não é à toa que todos os meus amigos me diziam isso. Aliás, não esperava isto somente dela: eu ainda tinha algo meu escondido à respeito disso, mas bem escondido.
O silêncio tomou o ar e cada um ficou parado olhando para o outro. Perguntei as horas e ela me respondeu secamente: uma da madrugada. Perguntei se ela queria uma bebida e subimos com o sim dela, mas em silêncio. Passamos um tempo cantando na roda, em silêncio. Apenas olhares trocavam entre si, em silêncio. Era como se o tempo passasse e nada atrapalhasse aqueles fuzilamentos e fotografias. Eu tinha que fazer alguma coisa. Mas aí é que está, o quê?
Queria ficar longe do pessoal para pensar e decidi ficar na fogueira. Peguei meu iPod e fiquei ouvindo música na caixa de som até que ela surgiu do nada. Começamos a conversar enquanto escolhíamos músicas. Ela escolheu I Want To Hold Your Hand e começou a cantarolar baixinho e pediu para dançar. Já havíamos dançado esta antes, mas não com a intensidade atual.
— Lembra de quando nos conhecemos e você, bobo, idiota, besta, como sempre, me pediu a mão para dançar esta música?
— Sim, há uns anos. Você estava tão linda, era a melhorzinha da festa. — Comecei a rir.
— E eu te achava esquisito pelo cabelo.
— Eu disse que num futuro iria se acostumar com cabelos grandes e um estilo de vida diferente.
— Falou certo. — Riu também.
Depois continuamos nos mesmos passos, mas em silêncio. Sentia sempre seus pulmões encherem de forma afetuosa mesmo quando paramos. Decidi olhar para ela: suas pupilas estavam dilatadas, seu peito inflava com os batimentos acelerados, e eu na mesma situação. Seus cabelos loiros flutuavam pelo ar acompanhando seus olhos azuis e as cores de seu vestido.
— Por que paramos? — perguntou.
— Porque eu quis...
Houve um momento de afeto, possivelmente, a semente plantada brotava um pouco. O fogo da fogueira subia descontroladamente ao nosso lado com o vento, e vendo por um ângulo, só conseguia ver um encarando o outro e os rostos se aproximando. Os dois se atraindo, como se os lábios fossem um imãs, até que se juntaram. Achei que nunca teria uma cena de filme enquanto beijava alguém ao lado de uma fogueira. Me enganei e foi muito bom.