— Ainda bem que foi um sonho!
Gritei sozinho logo pela madrugada, mais especificadamente às 2h37, como dizia o relógio na cabeceira. Decidi me levantar para dar uma relaxada, mas antes, procurei pelos meus óculos e acendi a luz. Mesmo com a lua cheia iluminando meu apartamente pelo vidro da varanda, a vista continuava fraca.
Caminhei até a cozinha, peguei um copo e enchi-o de água até a boca. Era um gole por segundo, e depois, com mais um copo cheio, sem tomar dessa vez, sentei no sofá da sala. Decidi ouvir um ritmo bem calmo de piano para me acalmar, mesmo sabendo que seria mais ao bel prazer do som do que para me acalmar. Apenas uma desculpa esfarrapada para ouvir música.
Fumava um cigarro como se fosse o último, apenas para reduzir aquela pressão chata. O sonho tinha sido pesado e eu lembrava vagarosamente do que havia acontecido, mas tentava abstrair minha mente tenebrosa com coisa fúteis, ou preocupações, como o que iria fazer no dia seguinte. Mesmo assim, sem obter sucesso, ergui meu braço e peguei mais um cigarro, e em seguida, me joguei no sofá.
Foi quando fitei meus olhos na parede. Uma parede bem velha, com marcas de grandes atos artísticos, como a pintura, o que eu fazia no cotidiano. Mas não havia somente tintas. Dava para ver as sombras, andando para lá e para cá. Eram bailarinas, pulando, rodopiando, cochichando algum clichê, mas seguindo o ritmo que saia das caixas de som do meu rádio, sem quebrar a harmonia.
Mas não só haviam bailarinas como também havia vários artistas. Minha sala tinha virado um enorme recital sem a minha petição, mas era lindo! Era lindo, todos sendo iluminados pela luz da lua, vindo do vidro logo atrás, com uma pequena vista da praia, numa pequena sala de jantar. Aliás, esta sala, que era pequena, cresceu com um piano e dois violinistas. Logo em seguida, um outro tocando violoncelo. Virou jazz.
O mais incrível eram as sombras. Não cessaram a sua movimentação e imaginação. Seguiam vivas, reproduzindo cenas de um livro de história aberto em cima da mesa. Haviam índios fugindo de exploradores ingleses, nos Estados Unidos, e, do outro lado, via-se e ouvia-se Shakespeare recitando um poema. Era…
— Ainda bem que foi um sonho!
Gritei de novo. Acordei às 6h30 com lambidas do meu cachorro. Levantei da cama e fui direto para a cozinha, mas não deixei de parar na sala e ver se estava tudo da mesma forma que abandonei na noite passada. Não havia nem o copo de água que havia bebido enquanto via as sombras. Não tinha nada demais por ali, a não ser meu cachorro brincando com uma sapatilha rosa.