segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Cais


Ainda acordo cedo nas manhãs que poderia acordar mais tarde, mas não consigo. É um vasto tiro não-acidental de memórias do passado indo em direção ao meu estado atual, que uma vez ou outra, derruba-me e aterrisso, novamente, em minha cama. Uma confusão só.

Mas aproveito o sol ardente que terá hoje, que, mesmo no outono, corro até aquele cais que encontra-se próximo ao Mar das Gaivotas. É um lugar lindo, outrora visitado por milhares de turistas, mas pela época do ano, o máximo que se vê é um pescador. Mal ele sabe que se alimenta mais de expectativas do que peixes em todos os dias que ele pisa naquele chão de madeira, mas ele nem foi hoje.

O caminho é longo, mas também não é curto. Em minha bolsa, lápis, caneta, um bloco de papel, e outras coisas úteis. Fazia frio de manhã, às 5h48, então eu vestia um casaco, bem quente, para evitar problemas futuros. O curioso era que esse casaco também revivia lembranças, maldito.

Chegando no cais, larguei a bolsa ao meu lado e sentei. Tomei providência de me posicionar ao lado de um poste, e comecei. Eram rabiscos, textos, e, até mesmo, poesias bem dotadas. Tudo relacionado à minha mente inquieta, mas só pensava nisso, então era difícil vir algo diferente. Continuava, e uma depois, havia um bolo de folhas que o vento teimava em levar consigo.

Eis que fui lá para me libertar disso, mas como? Havia feito todo aquele emaranhado, aquele bolo de papel com grafiti, como iria me livrar? Acabou que tive uma ideia e tudo virou gaivota e foi arremessado no sentido do vento, caindo no mar e afundando aos poucos.

Acontece que não vim para me atracar nesse cais, como fiz anteriormente. Vim para me libertar de coisas que deveriam ficar aqui fora, e não do lado de dentro. Aliás, essa carta que escrevo agora, também virará gaivota, mas será diferente: esta ficará dentro de uma garrafa. Quem sabe alguém encontre?